Os Brancos dos Açores Regressam ao Topo Vínico Mundial

Mind the Glass

Há regiões vinícolas que se impõem pela dimensão, pela história ou pelo peso mediático. E há regiões que se impõem pela singularidade absoluta, aquelas em que o vinho que se produz simplesmente não pode existir em mais nenhum lugar do planeta. Os Açores pertencem a esta segunda categoria, que reuniu oito dos mais notáveis brancos do arquipélago, foi uma demonstração magistral de por que razão estas ilhas atlânticas merecem uma atenção muito mais séria do que aquela que habitualmente lhes é concedida. Os resultados foram, em mais do que um sentido, vulcânicos.

Oito vinhos. Três DOC representadas: Pico, Biscoitos e Graciosa. Colheitas de 2021 a 2024, mais um sem data que desafia a lógica do tempo. Um elenco de produtores que vai dos nomes fundadores do movimento de qualidade açoriano até às novas vozes que chegam com uma clareza de propósito impressionante. E zero rótulos à vista. No final, uma conclusão que qualquer pessoa que tenha acompanhado a evolução da vitivinicultura portuguesa nos últimos anos já suspeitava, mas que raramente vê confirmada com esta eloquência numérica: os Açores produzem alguns dos vinhos brancos mais extraordinários do mundo.

A Cave do Czar Como Uma História que Ninguém Esqueceu

Quando, em 1917, a revolução bolchevique varreu o regime czarista e os seus agentes invadiram o Palácio de Inverno em São Petersburgo, encontraram nas caves imperiais algo inesperado: garrafas de Verdelho do Pico. Não era um caso isolado de excêntrica escolha pessoal. Nos séculos XVII e XVIII, o vinho açoriano era uma mercadoria de prestígio, exportado para a Rússia e servido nas cortes dos czares. A Verdelho do Pico tinha conquistado, sem relações públicas nem estratégias de marketing, a mesa dos homens mais poderosos do continente europeu.

O vinho produzido tornou-se famoso e foi largamente exportado, particularmente o produzido na ilha do Pico, para todo o Norte da Europa e até para a Rússia. Era o terrunho a falar antes dessa palavra existir como conceito enológico. Era o basalto, o vento atlântico, a casta Verdelho e as mãos dos agricultores picarotos a construir, ao longo de gerações, uma reputação que atravessava oceanos e chegava às cortes do Norte da Europa e da Rússia Imperial.

Depois veio a catástrofe. O oídio nos anos 1850, a filoxera no final do século XIX, o êxodo rural do século XX, o abandono das vinhas, a extinção quase total de castas autóctones como a Terrantez do Pico. A filoxera quase dizimou as vinhas nos finais do século XIX. O Pico perdeu em poucas décadas o que tinha construído em séculos. A ligação ao Czar tornou-se um mito, uma história contada pelos mais velhos, sem garrafa, nem rótulo que a confirmasse.

O Rei é Vulcânico

Começar pelo vencedor é uma convenção jornalística. Mas neste caso é também uma necessidade narrativa, porque o vinho que saiu no topo desta prova, Arcos Vulcânicos Verdelho 2021, da DOC Pico, com mais de 95 pontos, é, por qualquer critério de análise, um resultado extraordinário. Não apenas pela pontuação, a mais alta de toda a seleção, mas pelo que ela representa: um exemplar da casta Verdelho com cinco anos que se sobrepôs a colheitas mais recentes e a referências com reputações bem estabelecidas.

A Verdelho é, no contexto dos Açores, uma casta de enorme nobreza e longa história. Foi durante séculos a base dos vinhos que conquistaram os mercados europeus e americanos, e nas ilhas açorianas encontrou condições de expressão muito particulares, solos de basalto e escória vulcânica, humidade atlântica constante e amplitudes térmicas moderadas pela influência oceânica. O resultado é um perfil aromático que combina a tensão cítrica com uma profundidade mineral que poucos brancos europeus conseguem replicar. A pontuação não é um acidente, mas a consequência de um terrunho sem igual e de um trabalho de vinificação que soube não interferir onde a natureza já tinha feito a parte mais difícil.

António Maçanita Como o Arquiteto da Modernidade Açoriana

Se há um nome que atravessa esta prova como um fio condutor, é o de António Maçanita. Enólogo de formação clássica, com experiência acumulada em múltiplas regiões portuguesas e internacionais, Maçanita chegou aos Açores com a disposição para aprender o que o território tinha para ensinar, aliada à competência para traduzir esse conhecimento em vinhos de excelência.

Dois vinhos seus figuram nesta seleção, e ambos confirmam o seu estatuto de referência absoluta. A referência António Maçanita Arinto dos Açores Solera, da DOC Pico, obteve 95 pontos e foi o único vinho não datado da prova e, simultaneamente, o segundo vinho com melhor classificação geral.

Um vinho obtido pelo método de Solera é, por definição, um sistema de envelhecimento progressivo em que os vinhos de diferentes anos se fundem numa continuidade que transcende a colheita. A sua presença nesta prova é uma declaração filosófica: Maçanita não está apenas a fazer vinho açoriano de qualidade, está a reimaginar as possibilidades formais e estilísticas do que esse vinho pode ser. Aplicar a lógica do Solera, tão ibérica, tão mediterrânica, à Arinto dos Açores, uma casta de vocação atlântica e frescura quase nórdica, é um gesto de síntese cultural que o palato dos provadores reconheceu e aprovou.

O vinho António Maçanita Vinha Centenária 2023, também da DOC Pico, alcançou 94 pontos igualando o vinho A Cerca dos Frades Reserva 2022, posicionando-se como um dos momentos mais altos da colheita 2023, em toda a prova.

Uma vinha centenária nos Açores não é apenas velha é um repositório vivo de biodiversidade genética, um arquivo de castas que sobreviveu a décadas de abandono, ao êxodo rural do século XX e à falta de incentivos económicos que dizimou tantos outros vinhedos da região. Vinificar estas uvas com a seriedade que merecem é, simultaneamente, um ato enológico e um ato de conservação patrimonial. A pontuação é também um reconhecimento cultural.

A Cerca dos Frades em Estado de Graça

A Cerca dos Frades é um dos projetos que melhor encarna o paradoxo dos Açores vínico: uma região que, sendo remota e logisticamente desafiante, atraiu nas últimas duas décadas algumas das mentes mais criativas da enologia portuguesa e internacional. A propriedade, situada na ilha do Pico, produz vinhos que combinam a tradição das paisagens de vinha protegidas pela UNESCO com uma abordagem técnica contemporânea que recusa tanto o folclorismo fácil como a modernização sem alma.

Dois vinhos desta casa figuram na prova, e os resultados são uma demonstração de consistência ao longo do tempo.

A Cerca dos Frades 2023 pontuou 94, um resultado que, noutro contexto, seria o mais alto da mesa. Numa prova desta qualidade, é o quinto lugar. O que isso diz sobre o nível geral da seleção é mais significativo do que qualquer número isolado.

A Cerca dos Frades Reserva Verdelho 2022 igualou o António Maçanita Vinha Centenária, com 95 pontos. A colheita de 2022 nos Açores foi marcada por condições meteorológicas que testaram a paciência e a competência dos produtores, mas que, nos melhores casos, produziram vinhos de tensão e mineralidade excecionais. Este Reserva é um desses casos. A opção pelo Verdelho como casta de base reforça a identidade do Pico: é impossível falar desta ilha sem falar desta variedade, e A Cerca dos Frades fez com ela um dos vinhos mais pontuados desta prova.

Materramenta e a Voz das Ilhas Esquecidas

Se o Pico domina esta seleção em termos de representação e de pontuações mais altas, a presença da Materramenta com vinhos de duas DOC distintas, Biscoitos e Graciosa, é um dos momentos mais significativos desta prova do ponto de vista da cartografia vinícola açoriana.

Materramenta Arinto dos Açores e Verdelho 2024, da DOC Biscoitos, pontuou 90,818 e recebeu 18 valores. O homónimo da DOC Graciosa 2024 alcançou 90,545 e os mesmos 18 valores. A proximidade das pontuações, separadas por menos de três décimas, é reveladora de consistência transversal, extraindo o melhor de dois territórios insulares com características microclimáticas distintas.

A DOC Biscoitos, na ilha Terceira, é uma das regiões vitivinícolas mais singulares dos Açores, com vinhas plantadas em solos de basalto negro que criam um contraste visual dramático com a vegetação verde da ilha. A DOC Graciosa é, por sua vez, uma das menores denominações de origem do país, com uma produção total que muitos produtores continentais de média dimensão superam sozinhos. Ter vinho da Graciosa numa prova cega de alto nível é, só por si, um gesto de reconhecimento da diversidade do arquipélago que merecia ser mais frequente.

O projeto Materramenta, conduzido pela batuta enológica de Constantino Ramos, apresentou as castas Arinto dos Açores e Verdelho, uma combinação que, no contexto açoriano, é quase uma declaração de identidade regional. A Arinto traz a acidez cortante e os aromas cítricos, a Verdelho acrescenta corpo, textura e uma profundidade que é a assinatura mineral das ilhas. O resultado é um vinho que, mesmo nas posições mais baixas desta seleção particularmente exigente, se apresenta com personalidade e coerência.

O Continente Encontra o Atlântico

A presença de Anselmo Mendes nesta prova é, em si mesma, uma história. O enólogo de Monção, uma das figuras mais influentes da viticultura do Minho e um dos responsáveis pela modernização do Alvarinho português, chegou aos Açores com a mesma curiosidade intelectual que o levou a trabalhar em regiões tão diversas como o Alentejo e o Dão. O seu Muros de Magma Verdelho 2023, da DOC Biscoitos, pontuou 90,828 e recebeu 18 valores.

O nome não é acidental. “Muros de Magma” é uma referência direta à arquitetura de pedra basáltica, os currais, que definem a paisagem das vinhas açorianas e que constitui um dos elementos mais impressionantes da viticultura mundial. Construídos há séculos para proteger as videiras do vento atlântico e do sal marinho, estes muros de pedra negra dividem as vinhas em pequenos compartimentos irregulares que criam um mosaico de microclimas únicos. Que Anselmo Mendes tenha escolhido este elemento arquitetónico como nome do seu vinho açoriano revela uma leitura profunda do território, não apenas das castas e dos solos, mas da relação histórica entre o ser humano e a paisagem que torna os Açores tão singulares.

A pontuação de 90,828 coloca o Muros de Magma no grupo de vinhos com 18 valores, um resultado que, noutros contextos, seria o ponto mais alto de uma carreira. Aqui, é o resultado de um produtor continental que chegou a um território novo e produziu, à primeira abordagem, um vinho de nível europeu.

De Nicolau II ao Mundo Contemporâneo

Entre a Revolução Russa e o início do século XXI, os vinhos dos Açores viveram um período de quase invisibilidade internacional. A região produzia, as cooperativas funcionavam, os agricultores vinificavam, mas sem a ambição qualitativa nem a vocação exportadora que tinham caracterizado o período dourado. O mundo do vinho estava a olhar para a Borgonha, para Bordéus, para a Toscânia, para a Rioja. As ilhas atlânticas, distantes e logisticamente difíceis, ficaram fora do radar.

A viragem foi gradual e teve protagonistas bem identificáveis. A classificação da Paisagem da Vinha da Ilha do Pico como Património Mundial da UNESCO, em 2004, foi um momento crucial, não porque os currais de pedra basáltica passassem a produzir automaticamente vinhos melhores, mas porque colocou a ilha do Pico no mapa cultural do mundo e criou um argumento de singularidade que nenhuma outra região vinícola podia replicar. Com uvas das vinhas velhas deste local que foi classificado como Património da UNESCO em 2004, faz-se o Czar e o simbolismo não é acidental: a marca escolheu precisamente o ícone da realeza russa para nomear o seu vinho mais icónico, recuperando conscientemente o arco histórico que a revolução bolchevique tinha interrompido.

O Momento de Inflexão Protagonizado por António Maçanita e a Azores Wine Company

Se há um projeto que representa a viragem definitiva dos vinhos dos Açores em direção ao reconhecimento internacional contemporâneo, é a Azores Wine Company. Foi em 2010 que António Maçanita iniciou a sua primeira experiência nos Açores, com a recuperação da casta Terrantez do Pico. Quatro anos depois, em 2014, fundou o seu terceiro projeto de produção, a Azores Wine Company, que criou juntamente com Paulo Machado e Filipe Rocha.

O impacto nos mercados internacionais foi rápido e inequívoco. Na Wine Advocate, da publicação do mais influente crítico norte-americano, Robert Parker, já estão sete vinhos da Azores Wine Company dos Açores que obtiveram mais de 90 pontos em 100 possíveis. Na Azores Wine Company, a Volcanic Series tornou-se emblemática da região, proveniente principalmente do Pico. Os mercados de destino multiplicaram-se: António Maçanita tornou-se num empreendedor com mais de 500.000 garrafas produzidas e exportadas para cerca de trinta países.

O reconhecimento nacional seguiu o internacional. Em 2024, a Azores Wine Company foi distinguida com o prémio Produtor Revelação do Ano, galardão entregue na mesma gala em que o Czar 2014 da Adega Czar recebeu a distinção máxima de Vinho do Ano. Dois produtores açorianos, dois galardões de topo — numa noite que foi, em si mesma, uma declaração sobre o estado de uma região.

Em 2025, os Açores voltaram a marcar presença nas distinções de referência: a Vinha dos Utras Criação Velha 1ºs Jeirões 2023 da Azores Wine Company, com enologia de António Maçanita, foi selecionada entre os vinhos de excelência da Revista de Vinhos. A Criação Velha, precisamente o lugar onde, há mais de um século, cresciam as vinhas cujo Verdelho chegava às caves dos czares, voltava assim às páginas dos críticos mais influentes, desta vez com uma identidade renovada mas com raízes que a história confirmou.

O Que os Números da Prova Dizem ao Mundo

Neste contexto histórico, os resultados desta prova cega ganham uma dimensão que transcende a avaliação sensorial. Oito vinhos. Oito pontuações acima de 90 pontos. O vinho mais alto da seleção, os Arcos Vulcânicos Verdelho 2021, com 95 pontos. António Maçanita com dois vinhos acima de 94 pontos. A Cerca dos Frades com dois vinhos acima de 94 pontos. A Materramenta a representar duas ilhas diferentes com consistência impressionante.

Não é um acidente. É o resultado de décadas de trabalho, de investimento em vinhas que muitos consideravam irrecuperáveis, de enólogos que vieram de outras regiões e ficaram rendidos à singularidade de um terrunho, que não existe em mais nenhum lugar. É, também, a continuação de uma história que Nicolau II conhecia e que a revolução de outubro interrompeu durante mais de cem anos.

O mundo do vinho está a acordar em definitivo para os Açores. A crítica norte-americana e inglesa, as mais influentes do planeta em termos de movimentação de mercado, já descobriram os vinhos vulcânicos do Pico. Os escanções dos melhores restaurantes da Europa e dos Estados Unidos estão a colocar estes vinhos nas suas cartas com uma regularidade crescente. O enoturismo na ilha do Pico cresce ano após ano, atraindo visitantes que chegam especificamente para ver as vinhas de basalto negro classificadas pela UNESCO e para provar o que a terra vulcânica e o oceano atlântico criam em conjunto.

Nicolau II pressentiu-o, as cortes europeias celebraram-no, a história engoliu-o em silêncio. Mais de um século depois, sem rótulos nem hierarquias, um grupo de provadores, na garrafeira Pepe, ergueu os copos e devolveu ao Atlântico aquilo que sempre lhe pertenceu. O oceano não esquece, o basalto não mente e as castas dos Açores, afinal, nunca precisaram de um palácio para ser eternas.

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