Ao abrirmos hoje uma garrafa de vinho da casta Touriga Nacional do Douro ou de outra composta por Arinto de Lisboa, com a naturalidade e languidez de quem consome um produto de classe mundial, é porque nos esquecemos da trajetória que tivemos de traçar para chegar até aqui. A memória é volatilmente curta, mas a perenidade dos arquivos não esquece.
Assim, mergulhámos nas publicações mais importantes e completas produzidas pelo Instituto do Vinho e da Vinha: os Anuários de Vinhos e Aguardentes de Portugal, entre os anos 2000 e 2011, as “caixas negras” do setor, para reconstruir a história de uma das décadas mais vertiginosas da história vínica nacional.
O que encontrámos não foi um passeio no parque, mas uma guerra travada entre a tradição e a burocracia, entre o minifúndio e a globalização, entre a necessidade de escoar volume para Angola e a ambição de vender luxo em Nova Iorque. Esta é a crónica de como Portugal deixou de ser um país de angustiados agricultores fazedores de vinho, para se tornar num país de orgulhosos produtores de vinho.
O choque da realidade: O adeus à inocência e a humilhação da importação
O fogo de artifício do virar do milénio trouxe a ressaca da globalização. O Anuário 2000/2001 foi a certidão de óbito de um mundo antigo que não tinha futuro. Até ali, vivíamos numa bolha de protecionismo, consumindo o que produzíamos, com um mercado interno leal e, muitas vezes, pouco exigente. Mas no ano 2000, as barreiras alfandegárias psicológicas e reais caíram. A Organização Mundial do Comércio e a União Europeia ditaram o fim dos direitos comunitários e, de uma penada, o viticultor de Borba ou de Penafiel viu-se a competir, no mesmo mercado, com os pares chilenos ou australianos.
Os dados estatísticos desse ano mostram um país dividido ao meio, numa esquizofrenia produtiva, metade do vinho vinha das adegas cooperativas e o restante dos produtores individuais. Era o empate técnico entre o passado e o futuro. Concumitantemente, o sinal de alarme soou nas exportações, a França, cliente histórico e sentimental, começava a comprar menos. O “mercado da saudade” estava a envelhecer e o vinho português precisava urgentemente de sair da sua zona de conforto.
Depois, veio o choque e o impacto. Se tivéssemos de escolher o “annus horribilis” desta narrativa, seria a campanha documentada no Anuário 2001/2002. Foi o ano do paradoxo humilhante. Historicamente um país excedentário, Portugal viu-se numa situação insólita: em volume, importámos mais vinho do que exportámos, excluindo os vinhos generosos.
As más colheitas anteriores e um consumo interno voraz, acima de 50 litros “per capita”, criaram um buraco na oferta. A solução passou por importar massivamente vinho a granel vindo de Espanha. As imensas planícies quixotianas de La Mancha vieram salvar a eterna Dulcineia: a sede dos portugueses, em forma de garrafões e “bag-in-box”, que o mercado nacional exigia a preços baixos.
O setor percebeu, da pior maneira, que não conseguia competir na guerra fratricida dos preços baixos. Não tínhamos escala, nem custos de produção para lutar contra o vinho espanhol barato. A única saída seria a fuga para a frente buscando a qualidade.
Mas esta exigia ordem que surgiu sob a forma de papelada. As páginas destes primeiros anuários revelam o nascimento de um autêntico leviatã burocrático. A descentralização do poder para as Comissões Vitivinícolas Regionais (CVR) e a proliferação de exigências de registo mataram a viticultura de vão de escada. O vinho deixava de ser um biscate agrícola. A escolha para o produtor era simples e muito clara: tornar-se profissional ou retirar-se.
A engenharia da paisagem: O”big brother” da vinha e o relatório “Porter”
Com o orgulho ferido pelas importações e com a ameaça do novo mundo vínico, Portugal chamou a cavalaria estado-unidense. Entrava em cena o famoso “Monitor Group” de Michael Porter e a ViniPortugal. O diagnóstico foi claro: era preciso planear.
O Anuário 2002/2003 documenta a instalação do sistema operativo desta revolução: o Ficheiro Vitivinícola Comunitário. Acabou-se a era das estimativas quase amadoras. O Instituto do Vinho e da Vinha passou a saber, metro a metro, videira a videira, quem plantava o quê. Esta ferramenta, financiada por Bruxelas, permitiu uma cirurgia agressiva à paisagem portuguesa, até então nunca vista.
Sob a capa de um acrónimo burocrático (VITIS), escondeu-se a maior transformação visual do campo português dos últimos séculos. O Estado pagava para arrancar as vinhas velhas, misturadas, em encostas impossíveis de mecanizar. Em seu lugar, plantavam-se vinhas ordenadas com um compasso que permitia a entrada da ritmada mecanização.
Os dados do património vitícola entre os anos 2002 e 2005 mostram uma verdadeira limpeza étnica varietal. As centenas de castas misturadas nos antigos “field blends” começaram a ceder lugar a um verdadeiro “onze titular” de castas melhoradoras. No Douro e em Trás-os-Montes, assistimos à proliferação da casta Touriga Franca que acabou por destronar a Tinta Roriz e afirmou-se como a coluna vertebral da região. No Alentejo, a Trincadeira e a Aragonês ganhavam terreno, desenhando o perfil do vinho “redondo” e fácil de beber que o mercado solicitava. Apenas o Minho resistiu através de uma admirável teimosia cultural, os dados mostram que a região dos Vinhos Verdes manteve a sua aposta na Vinhão (tinto), na Loureiro e Azal (brancas), recusando a “Cabernetização” que ganhava raízes pelo mundo.
Depois da terrível onda de calor de 2003, que queimou a produção, o ano de 2004, documentado no Anuário 2004/2005, trouxe a grande colheita contabilizada em 7,5 milhões de hectolitros. Foi o ano da retoma e da afirmação. O Douro explodia não só como região de Vinho do Porto, mas como produtor de vinhos tintos de mesa de classe mundial e era o auge dos “Douro Boys”. A Estremadura, futura Lisboa, bombeava volume para o mercado. Havia vinho, mostrava-se qualidade e, finalmente, começava a haver estratégia.
A esquizofrenia comercial: O milagre angolano e a destilação púdica
A meio da década, Portugal vivia a duas velocidades. O Anuário 2005/2006 mostra um país em “velocidade de cruzeiro”, mas com um motor quase a gripar.
Por um lado, tínhamos a elite. O VITIS funcionava, as adegas modernizavam-se, o inox polido brilhava. A categoria “Vinho Regional” (Terras do Sado, Alentejano, Estremadura) explodia, roubando quota ao anónimo “Vinho de Mesa”. O consumidor português começava a beber menos, mas bebia muito melhor.
Por outro lado, tínhamos o lastro. A intervenção estatal através da destilação é a prova de que o mercado não era perfeito. Ano após ano, o Estado, com dinheiro da Europa, pagava para destruir vinho. Milhões de litros de vinho de menor qualidade, produzidos por operadores em dificuldades ou de vinhas obsoletas, eram transformados em álcool industrial. Era o subsídio de desemprego da vinha.
Quando a crise financeira global de 2008 ameaçava colapsar as economias ocidentais, surgiu um salvador inesperado vindo do continente africano: a longínqua e notória Angola.
Os dados do Anuário 2008/2009 contam uma história de loucura comercial. Com o fim da guerra civil e o preço do petróleo em alta, Luanda tornou-se o pulmão da viticultura portuguesa. Em 2009, Angola absorveu cerca de 444 mil hectolitros de vinho nacional. Quase 25% de todo o volume exportado. Enquanto a Europa e os Estado Unidos da América apertavam o cinto, Angola comprava tudo: desde os topos de gama para a elite do petróleo até aos milhões de litros de vinho de mesa em “tetra pak”, para alimentar a sede de uma população jovem e em franco crescimento.
Viveu-se um autêntico milagre angolano que permitiu às grandes empresas limpar stocks e manter a rentabilidade, financiando assim a aposta na qualidade noutros mercados. Portugal tornara-se um país dual: vendia “glamour” e “terroir” a copo em Londres e Nova Iorque, e vendia contentores de vinho de mesa para Luanda.
Esta dualidade é visível na estrutura empresarial descrita no Anuário 2009. A concentração era brutal. Cerca de 105 produtores, os gigantes a nível nacional, eram responsáveis por 65% de toda a produção. A base da pirâmide, composta por milhares de pequenos viticultores, tornara-se irrelevante em termos de volume comercial, servindo apenas para autoconsumo ou entrega nas cooperativas.
A nova identidade: O mapa redesenhado e a resistência à “Troika”
Ao chegarmos ao final da década, o país estava à beira da bancarrota financeira, prestes a receber a “Troika”. Mas, surpreendentemente ou talvez não, o setor do vinho estava mais robusto do que nunca.
A revolução burocrática tinha triunfado. A produção estabilizara em torno dos 6 milhões de hectolitros, longe dos excessos quase irracionais do passado. Em 2010, o volume de vinho certificado (DOP e IGP) ultrapassou largamente o vinho indiferenciado. Portugal tinha mudado de pele e de vida.
Esta mudança foi também geográfica e de marketing. Os anuários finais deste período documentam a remarcação do território: O Ribatejo, historicamente associado ao granel e à quantidade, lavou a cara e renasceu como Tejo, focando-se na frescura e na relação com o rio. A Estremadura, nome confuso para estrangeiros, que a confundiam com a Extremadura espanhola, assumiu-se como região de Lisboa, capitalizando o turismo. O Alentejo consolidou-se como a locomotiva do consumo interno, a marca de confiança do português médio. O Minho continuou a sua revolução branca, valorizando o Alvarinho e o Loureiro, preparando o terreno para o volume de exportação que viria a seguir.
As listas de prémios e medalhas do último anuário mostram a democratização da qualidade. Já não eram apenas as Quintas do Douro a ganhar ouro. As adegas cooperativas exibiam medalhas internacionais, provando que a tecnologia e a enologia moderna tinham chegado a todos os cantos do país.
Conclusão: O legado de uma década
Olhando para trás, através da lente fria destes relatórios estatísticos, a transformação é avassaladora. Em 2000, éramos um país de agricultores, assustados com a abertura de fronteiras, dependentes do mercado da saudade e atolados em excedentes de qualidade duvidosa. Em 2011, éramos um país de empresários vitícolas, com um cadastro digitalizado, vinhas reestruturadas para a eficiência, marcas regionais fortes e uma presença agressiva em mercados globais, de Luanda a Londres.
Não podemos fechar esta análise sem destacar a guerra dos nomes. A década de 2000 foi aquela em que Portugal percebeu que a palavra “vinho” não vendia, o que faturou é o termo “Lisboa”, “Douro” ou “Alentejo”. A transformação da Estremadura em Lisboa, documentada nos últimos anuários da série, é um caso de estudo de “marketing” territorial. Ao adotar o nome da capital, a região sacudiu a poeira da província e colocou-se no mapa turístico internacional. O Douro, por sua vez, emancipou-se do vinho do Porto. Se no início da década o vinho de mesa do Douro era o filho de um deus menor, em 2011, com a consolidação da DOP Douro, ele era a estrela, atingindo preços que almejavam rivalizar com os grandes vinhos do mundo.
O preço a pagar foi alto. Milhares de pequenos viticultores desapareceram e muitas castas antigas foram arrancadas. A paisagem rural mudou, trocando o romantismo do caos pela geometria da eficiência. Tivemos de engolir o orgulho e importar vinho espanhol quando a nossa terra claudicou. Dependemos do petróleo angolano para preservar um saldo salubre na contabilidade.
Mas sobrevivemos e, mais do que isso, criámos a base para que hoje, em qualquer restaurante do mundo, o vinho português não seja uma curiosidade exótica, mas uma escolha óbvia e de qualidade. Os Anuários entre 2000 e 2011 não são apenas livros de contas, mas sim os diários de bordo de uma tempestade perfeita, da qual o vinho português saiu, finalmente, adulto e pronto para mais uma década.
Esta é a história que os números contam. Uma história de sofrimento, de adaptação forçada, de erros estratégicos e de golpes de sorte. Mas, acima de tudo, a história de um setor que recusou morrer e se reinventou totalmente. Ao longo deste período, Portugal não mudou apenas de século, mudou de alma vitícola.
Artigo inicialmente publicado na revista Vinho: Grandes Escolhas


