Em Le Gourou du Vin, Michel Rolland apropria-se ironicamente do insulto dos seus detratores para assinar o seu manifesto definitivo e autobiográfico. O livro funciona como um vigoroso direito de resposta, onde o enólogo traça o seu percurso desde as raízes numa família de viticultores em Pomerol até se tornar o consultor mais influente — e polarizador — do mundo. Mais do que contar a sua vida, Rolland usa a obra para justificar a sua filosofia, recusando o rótulo de mercenário corporativo e afirmando-se como um homem da terra guiado pelo rigor científico.
A tese central da obra é uma defesa intransigente da ciência enológica e a destruição do romantismo vitivinícola cego. Rolland argumenta que o “passado glorioso” dos vinhos europeus é, em grande parte, um mito, recordando que nas décadas de 60 e 70 muitas adegas produziam vinhos duros, verdes e repletos de defeitos bacterianos. Para o autor, a introdução de higiene clínica, o controlo de temperatura e a obsessão pela maturação fenólica perfeita não aniquilaram o terroir; pelo contrário, foram estas inovações que o salvaram da mediocridade, eliminando as falhas que antes eram romanticamente chamadas de “tipicidade”.
Contudo, a obra revela o seu maior ponto cego ao descartar de forma defensiva as acusações de padronização global. Rolland argumenta exaustivamente que as suas técnicas apenas “revelam o melhor” de cada região, mas omite que a sua predileção por vindimas tardias, micro-oxigenação e forte uso de carvalho novo francês criou uma assinatura estilística pesada e adocicada. Ao procurar obsessivamente a textura de veludo e a ausência de defeitos — características que garantiam pontuações perfeitas de críticos como Robert Parker —, Rolland acabou muitas vezes por impor um “Estilo Internacional” que esbateu as fronteiras e as identidades geográficas dos vinhos.
Por fim, o livro reserva os seus ataques mais duros para o emergente movimento dos vinhos naturais e de mínima intervenção. Rolland acusa esta nova geração de usar a ideologia romântica do “nada adicionado” como uma desculpa esfarrapada para mascarar incompetência técnica e vinhos avinagrados ou com odores a estábulo. Em suma, o livro é o testamento impenitente de um gigante da enologia que acreditava fervorosamente que a tecnologia serve para domar a natureza e que o objetivo supremo do vinho é, pura e simplesmente, dar prazer imediato e sem falhas a quem o bebe.
Autor: Michel Rolland e Isabelle Bunisset.
Editora: Glénat Livres.
Edição: 1ª.
Data de Edição: Março de 2015
Número de páginas: 165
Onde comprar: Amazon.
Preço: 21 Euros (papel) e 10 Euros (Kindle).
