Em “Mondovino“ (2004), o realizador (e sommelier) Jonathan Nossiter serve-nos um documentário cru e provocatório que funciona como uma autêntica prova cega à alma da indústria vinícola global. Vestindo a pele tanto de crítico de cinema como de jornalista vínico, é impossível ficar indiferente a esta obra que capta o choque tectónico entre a globalização voraz e a reverência sagrada pelo terroir. Nossiter viaja com a sua câmara ao ombro por três continentes, desvendando uma teia de poder, dinheiro e influência que ameaça transformar o vinho — uma expressão cultural e agrícola milenar — num mero produto de supermercado estandardizado, concebido à medida de um gosto globalizado.
No centro da narrativa encontramos as forças da homogeneização, personificadas por gigantes corporativos como a família Mondavi, o omnipresente enólogo consultor Michel Rolland e o outrora todo-poderoso crítico norte-americano Robert Parker. A lente implacável do filme expõe a chamada “Parkerização” do vinho: a proliferação de néctares excessivamente extraídos, estagiados em madeira nova e manipulados com técnicas como a micro-oxigenação, desenhados especificamente para obter altas pontuações nos guias internacionais. Para quem analisa vinhos, esta secção do filme é um lembrete desconfortável, mas absolutamente necessário, de como o capital dita tendências e pode silenciar a voz autêntica das uvas e do clima.
Em contraponto a esta máquina comercial oleada, o documentário encontra os seus heróis apaixonados nos pequenos produtores artesanais que defendem a sua independência com unhas e dentes. Figuras inesquecíveis como o purista Hubert de Montille na Borgonha ou o combativo Aimé Guibert no Languedoc ancoram o filme com a sua resiliência emocional, lembrando-nos que o grande vinho é, acima de tudo, poesia imprevisível, intrinsecamente ligada à identidade e à história de um pedaço específico de terra. Há uma candura profunda nestes testemunhos que nos obriga a torcer pelos viticultores de mãos sujas de terra contra a assepsia dos gabinetes empresariais de Nova Iorque ou Bordéus.
Título Original: Mondovino
Intérpretes: Michael Broadbent,Hubert de Montille, Aime Guibert, Jonathan Nossiter, Robert Parker, Michel Rolland, Neal Rosenthal
Realização: Jonathan Nossiter
Produção: Goatworks Films e Les Films De La Croisade
Ano: 2004
Duração: 131 minutos
