“The World Atlas of Wine”, assinado por Hugh Johnson e Jancis Robinson, é a rara obra que não apenas merece o adjetivo, mas o define na sua totalidade. Publicado pela primeira vez na década de 1970, este não é apenas um livro de referência de grande formato, mas sim a pedra angular sobre a qual repousa a compreensão moderna e global da geografia do vinho.
A verdadeira genialidade desta obra reside, como o título sugere, na sua cartografia inigualável. O vinho é, na sua essência, geografia engarrafada, o “terroir”, e os mapas deste atlas traduzem esse conceito abstrato em algo brilhantemente tangível. Eles detalham encostas, curvas de nível, rios, altitudes e as fronteiras intrincadas de denominações de origem com uma precisão clínica e visualmente estimulante. Ao folhear estas páginas, o leitor não está apenas a ler sobre a “Côte d’Or” na Borgonha ou a sub-região de Cima Corgo no Douro, mas também a sobrevoar estas vinhas, compreendendo instantaneamente por que motivo o sol e o solo fazem com que um vinho nascido de um lado da colina seja tão diferente do seu vizinho imediato.
O texto que acompanha e dá vida a estas ilustrações majestosas é onde a sinergia entre os dois autores brilha com mais intensidade. Hugh Johnson traz a sua prosa lírica e uma profunda perspetiva histórica, tecendo a narrativa romântica de como cada região evoluiu ao longo dos séculos. Jancis Robinson, por sua vez, injeta o seu formidável rigor analítico, a sua atenção aos produtores contemporâneos e uma precisão técnica irretocável. O resultado é uma leitura que consegue ser, simultaneamente, evocativa e estritamente enciclopédica — um equilíbrio incrivelmente raro no jornalismo enogastronómico.
Além disso, o que torna as sucessivas edições deste atlas verdadeiramente vitais é a sua recusa em ficar estagnado na história clássica do Velho Mundo. As versões mais recentes são um documento fidedigno de um ecossistema vínico em rápida mutação. A obra aborda sem rodeios os impactos das alterações climáticas, ilustrando como as fronteiras da viticultura estão a expandir-se para latitudes antes impensáveis, ao mesmo tempo que dedica páginas e mapas cruciais a regiões outrora periféricas e hoje dinâmicas, desde a costa da China e as planícies da América do Sul até ao sul de Inglaterra.
O “The World Atlas of Wine” transcende a categoria de um mero catálogo apresentando-se como um passaporte inesgotável para a cultura mundial das vinhas. Quer seja um enófilo iniciante a tentar decifrar um rótulo complexo, quer seja um “sommelier” experiente ou um candidato a Master of Wine a estudar a composição dos solos, esta é a bússola fundamental. Numa era dominada por informações fragmentadas e opiniões rápidas “online”, a autoridade irrepreensível e a beleza perene deste atlas confirmam-no como o investimento literário mais sólido e revelador que qualquer apaixonado por vinho pode fazer.
A oitava e última edição apresenta 5 grandes novidades que importa conhecer:
1. O Impacto Frontal das Alterações Climáticas
Se nas edições anteriores as alterações climáticas eram mencionadas como uma preocupação futura, na oitava edição elas assumem o papel principal. Os autores explicam detalhadamente como o aquecimento global alterou as datas de vindima, os níveis de álcool, a escolha das castas e até mesmo a viabilidade de certas regiões clássicas. O atlas mostra como as fronteiras vitivinícolas estão a ser empurradas para norte, para sul e para maiores altitudes.
2. 22 Novos Mapas e Novas Fronteiras
O atlas conta agora com 230 mapas únicos (com uma impressionante atualização cartográfica e de design). A adição de 22 mapas inéditos destaca regiões que deixaram de ser meras curiosidades para se tornarem produtoras de classe mundial. Destacam-se:
- A inclusão de mapas dedicados ao Líbano e a Israel.
- Novas áreas nas Américas, como a Colúmbia Britânica (Canadá), o Uruguai e zonas emergentes na Califórnia (como St. Helena e Howell Mountain).
- A expansão substancial das regiões da China e a inclusão de zonas impensáveis no passado, como Taiwan.
- Um mapa detalhado do sul de Inglaterra, consolidando o Reino Unido como um produtor sério, especialmente de espumantes (uma consequência direta do ponto 1).
3. Ascensão do Vinho Natural, Biológico e Biodinâmico
A obra reflete a mudança no gosto dos consumidores e na mentalidade dos produtores. Há um foco renovado em práticas de viticultura sustentável, no movimento dos vinhos naturais, no ressurgimento de técnicas ancestrais (como a fermentação em ânforas de barro e talhas) e nos vinhos de intervenção mínima (“low-intervention”).
4. Redescobrimento do Solos e Castas Autóctones
A nova edição afasta-se um pouco da obsessão pelas chamadas “castas internacionais” (como Cabernet Sauvignon ou Chardonnay em todo o lado) e celebra o renascimento das uvas locais e esquecidas. Há também fotografias de solos muito mais detalhadas e um aprofundamento da ciência do terroir, refletindo o facto de que os enófilos de hoje estão muito mais interessados no que está debaixo da terra.
5. Reorganização de Regiões Clássicas
Até mesmo pesos pesados do Velho Mundo sofreram revisões. Regiões europeias que se fragmentaram em novas e mais específicas denominações de origem viram os seus mapas redesenhados para refletir a nova legislação e o desejo contínuo de identificar as parcelas de terra mais exclusivas (os chamados Cru). Em Portugal, o foco na diversidade dos vinhos de mesa do Douro, Dão e Bairrada surge mais afiado do que nunca.
Autores: Jancis Robinson e Hugh Johnson.
Editora: Octopus Publishing Group.
Edição: 8ª.
Data de Edição: Outubro de 2019
Número de páginas: 416
Onde comprar: Amazon.
Preço: 56 Euros (papel).
