A cidade do Porto apresenta um vasto diretório de garrafeiras de diferentes dimensões e objetivos, mas poucas patenteiam uma história geracional de sucesso cimentado ao longo dos anos, a Garrafeira Pepe fá-lo ao longo de 4 décadas e 5 gerações. Para assinalar os 40 anos de existência foi estruturado um ciclo anual de provas e “masterclasses”. Desta forma, entre os meses de fevereiro e novembro, a programação reunirá parceiros e convidados para experiências vínicas intimistas, intercetando clássicos intemporais e traduções contemporâneas.
A imagem que fica na retina dos mais recentes clientes da Garrafeira Pepe é o icónico edifício inaugurado nos anos 80, este relembra uma forma cúbica revestida de um reluzente e enigmático mármore negro apenas recortado pela delgada e elegante moldura metálica vermelha que envolve, quase por completo, a porta de entrada e demais fenestrações. A volumetria interior, sóbria e bem organizada, alberga mais de 5000 referências vínicas nacionais e estrangeiras de grande qualidade. Em boa verdade, este espaço comercial tem sido o espelho fiel da evolução nacional de toda a fileira do vinho.
Da Bairrada para a cidade do Porto e daí para o resto do país
Apenas os clientes mais antigos sabem que a Garrafeira Pepe é muito mais do que um edifício visualmente apelativo e comercialmente bem conseguido. Na verdade, é o culminar da vontade férrea cerrada nas malas de viagem de Joaquim Cândido da Silva ao deixar para trás uma carreira recheada de sucesso como vendedor das Caves São João.
Quando chegou à cidade do Porto, vindo da região da Bairrada, em 1940, instalou-se no atual Palácio dos Correios e abriu as portas de uma empresa de distribuição de bebidas denominada J. Cândido da Silva. Esta contou inicialmente com a representação dos vinhos das Caves São João, no entanto rapidamente expandiu o portefólio recorrendo a diversas bebidas como Porto Atkinson´s, Cinzano, Sociedade Vinícola do Dão, Pol Roger, cerveja Beck´s e Guiness, entre outras.
Antes do final da década, fruto do sucesso alcançado, Cândido da Silva abriu uma filial em Lisboa, na avenida Almirante Reis, integrando escritório e armazéns. Enquanto no Porto os escritórios mudaram-se para a Rua de Filipa de Lencastre, junto ao Hotel Infante Sagres. A ampliação dos negócios ficaria completa com a aquisição da Quinta do Sol, em Anadia, para a produção de vinhos com marca própria.
As décadas seguintes ficariam marcadas pelo ingresso do único filho, Luiz Santos Cândido Silva, na estrutura da empresa, que promoveu a abertura de uma nova filial em Coimbra e a ampliação do portefólio com marcas de fruta, conservas e das Águas de Carvalhelhos, o que obrigou a um aluguer de novos armazéns na antiga estação de comboios da alfândega do Porto, atualmente um parque de estacionamento.
Inauguração da Garrafeira Pepe e expansão dos negócios
O início da década de 80 marca o ingresso de Joaquim Cândido da Silva e Luís Cândido da Silva, filhos de Luiz Cândido da Silva, na organização empresarial. A Garrafeira Pepe nasceu em 1986 e abriu portas na avenida Antunes Guimarães, no Porto, fruto da sociedade entre Luís Cândido da Silva e a sua mãe, Marina Cândido da Silva.
O sucesso inicial da garrafeira originou falta de espaço de armazenagem levou à mudança, em 1992, para instalações provisórias localizadas na Rua Manuel Pinto de Azevedo. O espaço beneficiou de uma ampliação significativa e a garrafeira instalou-se definitivamente, contava na altura com de uma área de mais de 1.500 metros quadrados. Três anos depois Marina Cândido da Silva cedeu a sua quota ao filho, Joaquim Cândido da Silva, e retirou-se da empresa.
O novo milénio conduziu a um grande crescimento empresarial através do aumento exponencial das vendas fruto também da ligação acionista a Dirk Niepoort, em 2004, e da criação de novos espaços dedicados, a fortificados, charutos e copos, no interior da garrafeira. Os proveitos desta aposta resultaram na atribuição de vários galardões de “Melhor Garrafeira do Ano” pela imprensa especializada do setor.
A última década aportou um grande desenvolvimento e expansão do turismo na cidade do Porto, desta forma a garrafeira apostou num duplo vetor. Por um dado a implementou a distribuição personalizada à restauração e hotelaria da cidade. Por outro lado, renovou o piso superior da garrafeira e criou uma sala multiusos que possibilitou uma melhoria significativa nos múltiplos eventos vínicos realizados.
Em 2025 entrou na estrutura acionista, por cedência da quota de Joaquim Cândido da Silva o seu sobrinho João Pedro Cândido da Silva, o filho de Luís Cândido dando continuidade ao negócio familiar. O futuro está lançado.
As comemorações dos 40 anos da Garrafeira Pepe
A Garrafeira Pepe assinalará os 40 anos de história com a organização de um ciclo anual de provas e “masterclasses”. Desta forma, entre os meses de fevereiro e novembro, a programação juntará parceiros e convidados para experiências vínicas intimistas, intercetando clássicos intemporais e traduções contemporâneas focando-se na curadoria e no serviço individualizado.
O calendário inclui um verdadeiro programa internacional cheio de intensidade e bom gosto que agrega uma larga variedade de provas temáticas integrando vinho do Porto (Graham’s, Niepoort, entre outros) champanhes de referência (Pommery e Bollinger), “vignerons”, provas verticais (Chryseia), declarações de vintage (Niepoort) e encontros com produtores (Sogrape, Niepoort, Rozès, Quinta do Mouro, Luís Seabra, Márcio Lopes, Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Taboadella, Quinta do Vale Dona Maria, Esporão, Quinta do Crasto, Quinta dos Carvalhais, Louis Latour, Chateau Petrus, entre outros), visando a promoção do setor dos vinhos como expressão de cultura, memória e prazer.
Artigo originalmente publicado na revista Vinho: Grandes Escolhas nº 107



