|
Leitor Wine & Stuff
|
No mundo do vinho, usamos frequentemente a palavra “terroir” para descrever a complexa alquimia entre o solo, o clima, a topografia, a mão humana, entre outras. Mas, por vezes, deparamo-nos com vinhos onde o “terroir” engloba algo muito mais intangível, mas igualmente estruturante: a memória.
A história da Quinta da Várzea da Pedra, encravada no Bombarral, na Região Demarcada de Óbidos, não se conta apenas através de análises de ph ou das horas de sol que banham as suas vinhas. Conta-se através de um pedaço de papel apressadamente rabiscado, de uma parede forrada a azulejos dos anos 30, e da inabalável ligação de uma família à sua herança. Como jornalista vínico, já escutei muitas narrativas de fundação, mas raras são aquelas que desenham um círculo tão perfeito entre o passado e o presente.
Convido-vos a viajar ao longo de mais de um século de história, para descobrirmos como a vanguarda da arte popular portuguesa acabou imortalizada numa coleção de vinhos desenhada para o futuro.
1910: As Raízes na Terra e a Brisa do Atlântico

Para compreendermos o perfil de um vinho, temos primeiro de pisar a terra que o sustenta. Estamos na região Oeste de Portugal, a escassos 15 quilómetros do Oceano Atlântico e a cerca de 7 da Lagoa de Óbidos, com a imponente Serra do Montejunto a vigiar a leste. Foi aqui que, em 1910, a família Emídio lançou as sementes do seu legado, dividindo o compasso das estações entre os pomares da icónica Pêra Rocha e as tradicionais parcelas de vinha.
O microclima desta zona é um desafio vitícola e um tremendo benefício enológico. A presença da Serra do Montejunto abranda as horas de calor no pico do verão, enquanto as brisas marítimas predominantes de noroeste e os nevoeiros matinais vindos da Lagoa de Óbidos garantem um amadurecimento lento e muito equilibrado das uvas. O resultado é a promessa de vinhos com uma frescura vibrante, acidez incisiva e um toque de salinidade quase indomável.
Durante décadas, a família cultivou estas videiras, entregando o seu esforço à terra, mas a verdadeira revolução identitária desta propriedade começaria longe das cepas, no fervilhar cultural da capital portuguesa.
1937–1940: O Bisavô Tomás, a Viúva Lamego e o Azulejo
A história dá um salto fascinante graças a uma memória guardada pela família, uma daquelas notas que resgatamos e que valem o seu peso em ouro histórico. O protagonista desta era Tomás dos Santos, o bisavô paterno da atual geração.
Homem de visão e de notável sensibilidade estética, Tomás apreciava a lendária Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, em Lisboa. Fundada no século XIX, a fábrica era, nas décadas de 1930 e 1940, o epicentro absoluto da renovação da azulejaria nacional. Foi através desta que Tomás adquiriu uma série de peças de figura avulsa com motivos de arte popular portuguesa.
Não eram azulejos vulgares. Estas peças integravam uma coleção icónica de 1937, cujos motivos brilhariam nas grandes montras da época, nomeadamente a Exposição Internacional e a imponente Exposição do Mundo Português de 1940. Com os seus traços ingénuos, mas repletos de energia, assentes em cores primárias vivas sobre um fundo alvo, os azulejos exibiam orgulhosamente os símbolos da “portugalidade” impulsionada por figuras da cultura como António Ferro: o altivo Galo (que viria a tornar-se o de Barcelos), os pássaros românticos segurando a palavra “AMOR” (evocando os lenços minhotos), instrumentos musicais tradicionais, e cenas bucólicas de caça e flora.
O bisavô Tomás levou este tesouro etnográfico para a Quinta da Várzea da Pedra, incrustando os azulejos nos muros e no alpendre da propriedade. Ali ficaram, como silenciosos observadores do tempo, a ver as vindimas sucederem-se ano após ano.
2015: O Despertar Enológico e as “Tradições do Amanhã”
Avancemos mais de sete décadas no tempo. A vinha velha da quinta, plantada em 1948, continua a produzir uvas formidáveis. Mas foi apenas em 2015 que uma nova página se começou a escrever com tintas mais arrojadas. Os irmãos Alberto e Tomás Emídio, a nova geração aos comandos da quinta, decidiram que era chegado o momento de dar uma voz própria e engarrafada às uvas que a sua família cultivava há mais de um século.
Apostaram numa profunda requalificação. Plantaram novas vinhas focadas nas castas autóctones portuguesas, com forte predominância nas brancas, que hoje representam 90% da área vitícola da quinta, destacando-se o Arinto e o Fernão Pires, e remodelaram a adega. A filosofia adotada pelos dois irmãos foi a da intervenção mínima: viticultura sustentável sem recurso a herbicidas, vindima inteiramente manual em caixas pequenas, fermentações puras com leveduras indígenas, lagares tradicionais e longos estágios sobre borras finas.
Tomás Emídio resume a visão desta nova era com uma expressão perfeita: o seu objetivo é a criação de “tradições do amanhã”. Mas um grande vinho, feito com este grau de devoção, precisa de uma identidade visual que lhe faça justiça. E é exatamente aqui que a história familiar atinge o seu clímax de genialidade.
A Circularidade Perfeita: O Bisneto que Desenhou o Passado
Tomás Emídio, co-proprietário da quinta, é também um designer gráfico de formação. Além da profissão, herdou do bisavô não apenas o nome próprio, mas manifestamente o gosto e a intuição para o belo. Quando chegou o tão aguardado momento de criar a imagem de marca para os rótulos das primeiras garrafas da Quinta da Várzea da Pedra, Tomás não precisou de fechar-se num estúdio criativo ou de procurar referências na internet. A sua musa estava sentada no alpendre de casa e tinha brincado com ela muitas vezes na infância: “Chegou a altura de escolher a imagem para os nossos vinhos, então pensei nas memórias que tinha da Quinta. Lembro-me de ser pequeno e estar no alpendre com os meus irmãos a olhar para os azulejos, que tinham muitos desenhos diferentes. A nossa brincadeira era encontrar os repetidos,” partilhou Tomás.
Chegou a altura de escolher a imagem para os nossos vinhos, então pensei nas memórias que tinha da Quinta. Lembro-me de ser pequeno e estar no alpendre com os meus irmãos a olhar para os azulejos, que tinham muitos desenhos diferentes. A nossa brincadeira era encontrar os repetidos,
Ao descobrir no Museu do Azulejo que aquele puzzle da sua infância era, na verdade, uma coleção de 1937 de enorme relevo histórico para a cerâmica portuguesa, a epifania aconteceu. Tomás recuperou os stencils e os padrões exatos que o bisavô Tomás levara para a quinta nos anos 40, modernizou o traço, isolou cirurgicamente os elementos gráficos (o galo azul, o cão de caça, a flor campestre, o elefante) e converteu-os na identidade visual de toda a gama de vinhos.
A circularidade desta história é de arrepiar: o bisavô embelezou a propriedade com a arte popular do seu tempo, o bisneto engarrafa agora o vinho dessa mesma terra, embrulhado na arte que o avô tão ciosamente preservou. Quando um enófilo segura uma garrafa de um vinho Quinta da Várzea da Pedra, não está apenas a agarrar vidro e vinho, está a segurar a herança viva, contínua e palpitante de uma família.



