O Despertar de Nisa: Casa Landeiro estreia-se com um tinto que celebra o “Tempo da Terra”

Mind the Glass
Leitor Wine & Stuff
Credits: Hugo Pinheiro

Num dia frio de dezembro, a vila de Nisa aqueceu-se para receber um novo protagonista no cenário vitivinícola do Alto Alentejo. O “Para Nisa Tinto 2024” não é apenas o cartão de visita da Casa Landeiro, mas sim uma declaração de intenções que une a recuperação de raízes familiares à audácia de um “field blend” que promete agitar as águas no distrito de Portalegre.

Há momentos em que se percebe, quase instantaneamente, que estamos perante o nascer de algo especial. Foi essa a sensação palpável no passado mês de dezembro, na sede da União de Freguesias de Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e São Simão. Entre personalidades locais, imprensa especializada e a presença notada do presidente da Junta, Mário Macedo, a Casa Landeiro levantou o véu sobre o seu projeto de vida e, mais importante, sobre o seu primeiro “filho”: o Para Nisa Tinto 2024.

O lançamento de um novo produtor de vinhos é sempre um ato de coragem, mas fazê-lo em Nisa, um “terroir” com especificidades tão próprias dentro do vasto Alentejo, exige mais do que coragem: exige paixão e conhecimento. Luiz e Graziela Landeiro, os fundadores desta casa nascida em 2024, parecem ter ambos em doses generosas. O projeto surge de uma busca pessoal de Luiz pelas suas origens, materializada agora em vinho.

Credits: Hugo Pinheiro

A Estreia: Para Nisa Tinto 2024

O que chega agora aos copos é o resultado da primeira vindima da Casa Landeiro na Tapada do Fental. E que estreia. O Para Nisa Tinto 2024 apresentou-se aos convidados e deixou uma impressão forte, pautada pela elegância e pela promessa de uma excelente evolução.

Estamos perante um vinho de intervenção mínima, tanto na viticultura como na enologia, uma filosofia que está muito em voga, mas que aqui é aplicada com o obrigatório rigor. As uvas provêm de vinhas de sequeiro — obrigando a planta a lutar pelos nutrientes e a aprofundar as raízes, o que se traduz em complexidade — e foram vindimadas manualmente.

A composição do lote conta uma história de duas parcelas. Metade do vinho provém de uma vinha mais jovem, dominada pela casta Aragonês, que confere estrutura e vivacidade. A outra metade, a alma do vinho, vem da parcela de Vinhas Velhas da Tapada do Fental. Aqui, brilha a Alicante Bouschet, uma das castas mais interessantes do Alentejo e predominante neste “field blend”, coadjuvada pelas históricas Grand Noir, Castelão e Trincadeira. É nesta alquimia entre a juventude da Aragonês e a sabedoria das vinhas velhas que reside o segredo deste tinto.

Na adega, a mão do enólogo Mário Andrade foi cirúrgica. A fermentação ocorreu espontaneamente com leveduras indígenas — a verdadeira impressão digital do local —, seguida de uma maceração pelicular de 10 dias. O estágio, dividido entre o inox e barricas usadas durante seis meses, foi desenhado para não mascarar a fruta. O objetivo foi preservar a autenticidade varietal e a frescura, algo crucial numa região onde o calor pode, por vezes, retirar elegância aos vinhos.

A prova confirma as opções técnicas. De cor rubi intensa, o nariz é marcado por aromas vibrantes de frutos vermelhos frescos, notas de especiarias e um subtil toque terroso, típico dos solos da região. Na boca, a palavra de ordem é equilíbrio: taninos suaves, uma acidez correta que lhe dá “bebilidade” e um final longo. É um vinho que respeita o consumidor e, acima de tudo, a terra de onde veio.

O Terroir da Tapada do Fental

Para compreender o vinho, é preciso compreender o chão que pisamos. A Tapada do Fental oferece um “terroir” distinto, composto por solos xistosos e argilo-arenosos. É um perfil de solo pobre, mas generoso em carácter. O clima, marcado por invernos húmidos e verões curtos, mas quentes e com fortes amplitudes térmicas, permite maturações equilibradas preservando a acidez natural das uvas.

Dos 30 hectares da propriedade, 14 estão ocupados com vinha. A Aragonês domina com 5,2 hectares, mas há espaço para a experimentação e para a diversidade. Nos talhões das tintas, encontramos as “estrangeiras” Arinarnoa e Marselan a conviverem com a portuguesa Tinta Miúda e até uma branca infiltrada, a Viognier. Contudo, é no hectare de Vinhas Velhas que reside o património genético mais valioso da quinta.

O futuro, contudo, não será apenas tinto. A Casa Landeiro tem planos ambiciosos para os brancos. As plantações iniciadas em 2025 e previstas até 2027 apostam nas clássicas Arinto, Bical, Malvasia e Sercial. Mas a curiosidade do projeto revela-se na introdução experimental de castas internacionais como Savagnian, Sauvignon Blanc, Semillon ou Riesling. A ideia de ver um Riesling ou um Chenin Blanc a expressar-se no “terroir” de Nisa é, no mínimo, intrigante para qualquer enófilo.

“Tempo da Terra”: Uma Filosofia de Sustentabilidade

Tempo da Terra é o mote que guia a Casa Landeiro e não é apenas um slogan de marketing. Este reflete uma postura de respeito pelos ciclos naturais. A viticultura na Quinta do Fental segue diretrizes de intervenção diminuta. Onde outros poderiam optar por arranques massivos para facilitar a mecanização, aqui a prioridade é a substituição cirúrgica de plantas mortas ou o apoio a videiras em dificuldade.

A sustentabilidade aqui também é social. A Casa Landeiro compreende que o vinho é feito de pessoas. As equipas que trabalham a vinha, da poda à vindima, são recrutadas exclusivamente na localidade, fomentando a economia de Nisa e mantendo o saber-fazer na região.

Credits: João Henriques

Uma Equipa de Peso

Para materializar esta visão, Luiz e Graziela rodearam-se de competência. Vasco Magalhães, como diretor-geral, é o braço direito que assegura a operacionalidade do sonho.

A viticultura carrega um legado pesado e honroso. Até ao verão de 2025, foi supervisionada pelo incontornável Professor Nuno Magalhães, uma das maiores figuras do estudo da vinha em Portugal. O seu trabalho de base é agora continuado pelo Engenheiro José Luís Marmelo, viticólogo destacado da região de Portalegre, que tem a missão de interpretar e potenciar a visão deixada pelo professor.

Na enologia, Mário Andrade, conhecedor profundo da região, assina este primeiro vinho e prepara os próximos passos desta casa que, embora jovem, demonstra uma maturidade invulgar. Os trabalhos de campo são liderados pela equipa de Anselmo Solano.

A Casa Landeiro chega ao mercado não apenas para vender garrafas, mas para contar a história de Nisa através do vinho. O Para Nisa Tinto 2024 é o primeiro capítulo de uma narrativa que promete ser longa e saborosa. Se este vinho de estreia é um indicador do que está para vir, o Alto Alentejo ganhou, sem dúvida, uma nova referência que almeja a excelência.

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