Escolhas de 2016

RIEDEL
Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos são difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos.

 

A minha escolha em espumantes recaiu em dois exemplares, Douro e Bairrada, cheios de personalidade e capazes de se bateram com o que melhor se faz por esse mundo fora. O prolongado estágio a que foram submetidos confere-lhes muita complexidade, frescura e acidez. Por isso são excelentes companhias para a mesa: Quinta dos Abibes Sublime 2010 (PVP 28€) e Vértice Gouveio 2007 (PVP 25€).

Nas últimas duas décadas, o aumento da qualidade que os vinhos brancos nacionais têm vindo a apresentar é inegável. O uso contido da barrica, a expressão do local e da casta têm vindo a contribuir para essa melhoria.
Foto: Miguel Ferreira (A Lei do Vinho)
Ao longo deste ano provei brancos que facilmente podiam estar no lugar mais alto do pódio. Podia sugerir o D. Graça Vinhas Antigas Reserva 2009, o Quinta da Passarela Villa Oliveira 2011, o Quinta das Bágeiras Garrafeira 2004 ou ainda o Vale D. Maria Vinha de Martim 2015 pela capacidade de expressarem de uma forma marcante o “terroir” e as castas de onde provêm. No entanto, aquele que mais me surpreendeu foi o Caves S. João 96 anos de História (PVP 60€). Um vinho feito em 1983 a partir da casta Chardonnay que na Bairrada está plantada desde o século XIX. Um exemplar com múltiplas camadas de sabores e aromas que me deixou francamente de joelhos. Um hino à região.
A enologia nacional atravessa um momento excecional, nunca houve uma tão grande proliferação de enólogos e isso é também notório na qualidade dos vinhos tintos apresentados. No entanto, é bom lembrar que nas últimas duas décadas do final do século passado, quando se iniciou a revolução vínica nacional, também já se produziam excelentes vinhos de categoria mundial. A minha escolha denota isso mesmo.
Muito embora tenhamos assistido a mais um lançamento de um mito, o Barca Velha, desta vez de 2008, o meu favorito continua a ser o Barca Velha 1991 que tive oportunidade de provar numa prova recente. Ainda dessa década, o D’Avillez Garrafeira 1995 deslumbra qualquer um pelo conjunto harmonioso e complexo. Um vinho composto por um lote de Trincadeira, Aragonês e Tinta Francesa que, apesar dos anos, ainda denota alguma fruta. Este foi também um ano no qual assistimos ao lançamento de um vinho absolutamente imponente, o Casa de Santar Nobre 2013 (PVP 60€). O aroma frutado, terroso, especiado, seco, muito intenso e com taninos bem polidos fazem dele um vinho que ninguém deve perder. Ainda do Dão, destaco o Quinta da Pellada Carrocel Late Release 2011, um vinho que só sai para o mercado em anos em que a Touriga Nacional atinge níveis de exceção. Nesta edição, as notas de frutos do bosque e de flores são discretas, mas a mineralidade, estrutura e acidez reveladas denotam um vinho cheio de elegância e sedução.
Muito embora os vinhos anteriores se tenham evidenciado de uma forma superior, nenhum deles atingiu o patamar do Kompassus Baga Coleção Privada 1991 (PVP 500€). É um vinho monumental, cheio de profundidade e elegância. Apesar dos seus 25 anos aparenta muito menos e viverá muito mais. 300 garrafas de uma Baga para beber e chorar por mais.
Por fim, gostaria de destacar um vinho que foi feito no ano em que Thomas George Shaw publicou a obra “Wine, the Vine and the cellar”. Nesse ano, Ernest Cockburn, classificou o vinho do Porto como um dos melhores de sempre. Foi também nesse ano, durante a primavera, que a filoxera marcou presença pela primeira vez na zona de Gouvinhas.
De lá para cá, o vinho Barbeito Boal 1863, já presenciou o nascimento e a morte da alguns reis portugueses, a implantação da república, a passagem das diferentes ditaduras nacionais, o 25 de Abril e muito provavelmente ultrapassará a vida de todos aqueles que neste momento estão a ler este texto. É um pensamento avassalador, o vinho também.
P.S: a crónica original foi publicada no blog “Contra-Rótulo” em
30/12/2016.

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