Como se conquista o Porto?

RIEDEL Mind the Glass

O doutor Quim era um médico que usava uma bicicleta para se deslocar de aldeia em aldeia. Com ele levava uma bolsa na qual transportava os utensílios de trabalho que usava para detetar as maleitas dos seus pacientes e os diferentes remédios para as curar.

Durante anos pedalou pelas estradas sem nunca recusar um pedido de ajuda vindo de uma voz aflita. Ajudou parturientes a dar à luz e pais no leito de morte quando a sombra da morte já se avizinhava.

Por vezes, a forma de pagamento nem sempre estava relacionada com dinheiro, um bem relativamente escasso nas aldeias de então. Era frequente carregar a bolsa de médico à saída e no regresso trazer a companhia de uma galinha, um par de coelhos, um saco de batatas, garrafas de vinho e outros bens.

Com o passar dos anos a força nas pernas foi-se esgotando e a pedaleira foi dando lugar a uma vida mais calma e recatada.

Num desses dias, Mário Sérgio Alves Nuno, a face mais visível da Quinta das Bágeiras, teve a seguinte conversa com o Doutor Quim, que Ana Fonseca reproduziu no seu livro “Cada garrafa conta uma história”:

“- Ó Sergito, sabes como é que se conquista Lisboa?

– Não…

– Com leitão e espumante.”

Se para conquistar Lisboa, o remédio saído da maleta do doutor Quim tem sido quase infalível, o que será necessário para conquistar uma cidade, como o Porto, que faz gaudio em brandir a palavra invicta?

Leitão, espumante e…

Desta forma, a Comissão Vitivinícola da Bairrada (CVB) decidiu organizar no dia 18 de novembro, no Palácio do Freixo, o evento “Bairrada no Porto”. A produção ficou a cargo da Essência do Vinho.

Muito provavelmente, alguém CVB deve ter conhecido o Doutor Quim e compreendido bem a mensagem que ele tentou difundir. No entanto, decidiram complementar um pouco mais a prescrição médica.

No topo do receituário esteve o leitão proveniente do restaurante Rei dos Leitões. Da Bairrada foram trazidas as já muito conhecidas, e apreciadas, sandes, rissóis e empadas de leitão.

A segunda parte da prescrição referiu-se ao inevitável espumante. A maioria dos 22 produtores que participaram no evento trouxeram várias referências de uma das bebidas mais tradicionais da Bairrada.

Ao longo do desenrolar do evento, muitas vezes se ouviu o som inconfundível, e cada vez menos audível, do desarolhar de uma garrafa de espumante. O som da palavra saúde também se ouviu.

Para quem quisesse conhecer pormenorizadamente alguns dos espumantes presentes no evento foi organizada uma prova comentada pelos jornalistas Luís Costa e Alexandre Lalas, críticos de vinhos da Revista de Vinhos, denominada: “Bairrada: o reino das borbulhas”.

No entanto, a prescrição médica não terminou por aqui. Para que a conquista não tivesse uma “recaída” foi ainda estabelecido um receituário complementar de vinhos brancos, tintos, rosés e destilados.

A Bairrada tem uma longa tradição na produção de vinhos brancos de grande qualidade a partir das castas: Bical, Fernão Pires, Arinto e outras. Nas tintas, a casta rainha é a Baga.

Para provar algumas das referências mais emblemáticas também foi organizada uma prova, igualmente conduzida pelos 2 jornalistas já referenciados, denominada: “Bairrada de culto”, na qual puderam ser provados vinhos brancos, tintos e rosés.

Desta forma, os produtores presentearam os mais de 500 participantes com praticamente toda a oferta de vinhos e gastronomia que a Bairrada tem para oferecer.

O Doutor Quim sabia prescrever grandes medicamentos e houve quem o escutasse.

2 Comments

  1. Luiz

    Essa história é bem contada… Só que o Dr. QUIM, meu médico e de toda a família e não me ia se bicicleta…. Mas sim de Carocha creme….
    Foi ele que tentou emparcelar as vinhas de minifúndio da região…. Homem que viu antes do tempo… E que era um João Semana.
    Ele só referia as duas coisas diferenciadoras da região…. Que conquistam todo o mundo.

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