As notícias e os vinhos que marcaram um ano de chumbo – Parte I

RIEDEL Mind the Glass

Ao longo do ano de 2020 tenho acompanhado e divulgado as principais notícias associadas ao universo vínico nacional e internacional. Com o final do mês de dezembro olhámos para trás e fizemos mais um balanço do ano.

Acontecimentos vínicos marcantes na Europa e no mundo

Em janeiro, enquanto o mundo vínico comentava a recente aquisição da “Wine Advocate” pela editora do guia “Michelin”, a França dividiu-se a propósito da primeira campanha de saúde pública, “Dry Campain”. Esta apelou às pessoas que se abstivessem de álcool durante o mês de janeiro. Em resposta muitos autores apelidaram-na de obsessão puritana anglo-saxónica.

Ainda no campo das aquisições, a Moët Hennessy adquiriu o controlo de um dos mais afamados produtores da região da “Provence”, o “Chateau d’Esclans”. Recordo que produzem referências mundialmente reconhecidas como “Garrus” e “Whispering Angel”.

Janeiro também colocou nas bocas do mundo uma tanoaria de Bordéus. A Surtep apresentou ao mundo as primeiras barricas com tosta proveniente do jade e de pedras de lava. Uma inovação, no mínimo, escaldante.

No mês de fevereiro surgiram várias notícias sobre os planos para a construção de um centro cultural vínico em Pequim em parceria com a “Cité du Vin” de Bordéus, orçado em mais de 65 milhões de euros. 

Ainda durante o segundo mês do ano, as elevadas tarifas (25%), que os Estados Unidos da América estabeleceram sobre alguns dos vinhos europeus impediram inúmeras encomendas de serem expedidas. Aparentemente, quem ficou a ganhar foram os vinhos provenientes de Itália. Muitos compradores profissionais optaram por adquirir em grande quantidade algumas referências de topo por não se encontrarem abrangidas pela disputa.

Por cá, as boas notícias continuavam a ecoar. A família Symington criou, em Janeiro, um Fundo de Impacto de 1 milhão de euros destinado a apoiar causas de beneficência nas regiões do Douro, Porto e Alto Alentejo.

Também algumas regiões e produtores apresentaram aumentos na certificação de vinhos, aumento nas vendas e aumento de produção. Tudo parecia correr bem.

O famigerado mês de março começou por trazer boas notícias. O sucesso alcançado em muitos países pelos denominados vinhos naturais trouxe muitas dúvidas sobre a verdadeira natureza dos mesmos. Assim, o Institute National de L’ Origine et de la Qualité (INAO), organismo francês que administra as diferentes “Apellations”, conjuntamente com outra instituição, apresentou um verdadeiro caderno de encargos, intitulado “Vin Méthode Nature”, que estipula os procedimentos a seguir para a produção deste tipo de vinhos.

Em meados de março quase todos os governos da Europa decretaram medidas mais ou menos draconianas para conter a pandemia. A maioria do tecido produtivo parou ou operou de forma muito limitada. Os cafés, bares e restaurantes foram atingidos severamente e com eles todos os produtores de vinho que usavam este meio para escoarem as suas produções. A situação era tão grave que algumas personalidades, como Peter Symington e Pedro Torres, compararam-nas àquelas vividas pelos seus familiares em tempos de guerra. Os tempos de chumbo tinham começado.

No nosso país, as medidas governamentais de combate à Covid-19 limitaram a apenas 1/3 da capacidade de cada unidade de restauração aberta ao público. Como resposta ficaria famoso o movimento “#Tomates”, iniciado por Ljubomir Stanisic nas redes sociais desafiando o Governo a fechar toda a restauração. Esta, nas semanas seguintes, transfigurou-se e adaptou o regime de “take away”.

Também em Março, o Grupo Bacalhôa noticiou da saída de Mário Neves, reconhecido director de exportação da empresa ao longo de mais de 40 anos. Ficamos a aguardar um livro de memórias.

O mês de abril ficou marcado por mudanças no paradigma vínico mundial. Como quase todos os eventos que envolviam vinho foram cancelados ou adiados, as provas e as vendas de vinhos transferiram-se de armas e bagagens para o mundo virtual.

Por um lado, usando as múltiplas plataformas virtuais disponíveis, foram publicadas inúmeras listas, mais ou menos exaustivas, de distribuidores, garrafeiras e restaurantes que vendiam vinhos através das plataformas digitais. Por outro lado, as provas de vinho virtuais tornaram-se quase ubíquas. No Reino Unido, a plataforma “Zoom” conheceu êxito imediato por ser uma das mais usadas com esse fim.

Por cá, a feira de vinho digital, “Portugal Wine Week”, levada a cabo pelo “Addega Wine Market,” ficou na história como a primeira do seu género com reconhecido êxito.

A crítica de vinhos, mais ou menos instituída, também aderiu ao digital de forma consistente. As principais revistas do setor, blogues, escanções e outros encontraram formas mais ou menos originais de comunicar com o público através das redes sociais “Facebook” e “Instagram”.

Os produtores também desenvolveram algumas estratégias pouco usadas no nosso país. Alguns aderiram, de forma massiva, à venda direta de vinhos.

Ainda em abril, o mundo vínico foi surpreendido por mais uma declaração de Vintage por algumas casas mais destacadas na produção de vinho do Porto. Uma situação que veio para ficar com as alterações climáticas?

Em Maio, o governo italiano autorizou o uso da casta Pinot Noir, até 15%, na produção de “Prosecco”. A casta Glera deixou de estar sozinha.

Por cá, o Governo Português elaborou o Plano Nacional de Apoio com o objectivo de minimizar os efeitos da pandemia no setor vitivinícola. Este plano apresentou subsídios à armazenagem e à destilação, no valor de 10 milhões de euros. Uma pequena lufada de ar fresco.

Os meses de maio e junho ficaram marcados pela reabertura dos restaurantes um pouco por toda a Europa, no entanto essa reabertura foi acompanhada de muitas medidas e restrições. O canal Horeca começou a respirar.

Em junho assistiu-se a algo quase inédito, apesar da qualidade reconhecida por alguns críticos, o preço dos vinhos “en primeur” de Bordéus sofreu um corte entre 20 a 30%.

Durante este mês fomos surpreendidos por uma empresa, sediada em Ipswich, ao lançar para o mercado uma garrafa de vinho produzida principalmente por cartão reciclado. Para prazeres frugais.

Em Julho, no nosso país, foi inaugurado o Word of Wine em Vila Nova de Gaia. O gigantesco complexo vínico, com mais de 55 mil metros quadrados, é composto por cinco museus, oito restaurantes e cafés, um espaço de exposições e muitas áreas para eventos, ligados por uma praça com vista para o Douro e para a cidade do Porto. O acontecimento do ano.

No mês de agosto, a revista Decanter elegeu para o seu “Hall of Fame” o crítico mais influente de todos os tempos, Robert Parker. 100 pontos para uma carreira paradigmática.

A região de “Champagne”, através do seu comité, reportou uma retração histórica das encomendas. Os efeitos da pandemia ainda se faziam sentir.  

Por quase toda a Europa, as vindimas começaram mais cedo. Uma realidade cada vez mais presente.

Na cidade de Florença, alguns bares recomeçaram a usar as pequenas aberturas nas paredes denominadas janelas de vinho, como forma de manter a distância social. Foi o retomar de uma velha tradição do tempo dos grandes surtos pandémicos. A história repetiu-se, mais uma vez.

Por cá, o mês de agosto trouxe o anúncio da reforma do prestigiado enólogo José Maria Soares Franco.

Durante o mês de setembro, o INAO aprovou 22 localizações como “Premier Cru” em Pouilly-Fuissé. Um marco histórico.

Ainda durante esse mês, o estado de Whashington, nos Estados Unidos da América, ganhou mais uma área de viticultura, Royal Slope. Um pouco mais a Sul, na Califórnia, os fogos florestais regressaram tão destrutivos como sempre. Algumas propriedades foram destruídas e o já recorrente problema do cheiro a fumo nos vinhos voltou a pairar sobre as colheitas.

No mês de outubro, as notícias dos fogos nos Estados Unidos da América continuaram na ordem do dia.

Em Milão foi desmantelada uma rede dedicada à falsificação de vinhos com a marca Sassicaia da colheita de 2015. Foram apreendidos mais de 80 000 itens relacionados com a produção ilegal desta referência. Novas notícias sobre um velho problema.

No nosso país, o governo anunciou um aumento das exportações dos vinhos portugueses. Também do exterior surgiu a notícia da nomeação de Bento Amaral, director dos serviços técnicos e de certificação do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, para “Wine Person of The Year”, pela revista de vinhos norte-americana “Wine Enthusiast”. Uma boa notícia nunca vem só.

No mês de dezembro surgiram rumores que a administração de Joe Biden se preparava para baixar ou remover as taxas sobre os vinhos europeus que o seu antecessor promulgou.

Na Europa, o espectro do confinamento volta a assombrar a restauração e todo o canal Horeca.    

Por cá, a fundação “The Porto Protocol”, e o Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo receberam o galardão “Best Green Initiative” e “The Amorim Sustainability Award”, respetivamente, através da 11ª Edição dos prémios “The Drinks Business Green Awards”.

Por fim, o Governo fez várias alterações ao programa VITIS, atribuindo uma dotação de 50 milhões de euros, dando prioridade a vinhas que se destinem à produção biológica, aos produtores detentores do estatuto da agricultura familiar, às vinhas históricas e aos projectos de interesse nacional.

Os últimos dias do ano confirmaram os valores apurados pelo Instituto da Vinha e do Vinho que estimavam uma redução de 3% na colheita relativamente à anterior.

Enquanto escrevi este texto, a vacina começou a ser inoculada à população. A esperança renasce.

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