A era Robert Parker: um palato, uma métrica e um universo (Parte 2)

RIEDEL Garrafeira Fernando's Garrafeira Fernando's

A colheita Bordalesa de 1982: o momento decisivo

Na colheita de 1982 as condições climatéricas foram praticamente perfeitas nos pontos críticos para a produção de grandes quantidades de excelentes uvas. Michel Rolland referiu, na altura, que foram as melhores uvas que ele tinha visto em toda a sua vida. O professor Émile Peynaud, detentor de uma carteira de consultadorias que ascendia a mais de quarenta “châteaux”, também referiu que nunca tinha visto um nível tão elevado de qualidade e quantidade como o de 1982. Chegou mesmo a compará-la com as colheitas míticas de 1947, 1949, 1959 e 1961.

Do outro lado do Atlântico, Robert Parker estava atento ao que se escrevia e com o passar dos dias aumentava a curiosidade e a ansiedade para provar os vinhos “en primour”. Quando chegou o mês de março e aterrou em Bordéus arquitetou uma intensa agenda de visitas nas quais provou, em alguns casos, mais de cem amostras diárias.

Poucas horas depois da sua chegada de França, Parker foi ao jantar, mais importante do calendário vínico dos Estados Unidos da Europa, no qual estava reunida a nata vínica do país e muitas celebridades para provarem algumas amostras de casco de vinhos da Califórnia.

Nesse mesmo jantar, Parker foi apresentado a Bob Finigan (um dos críticos de vinho mais importantes da época), que também provou “en primour” alguns dos vinhos. Curiosamente, Finigan, com o decorrer da conversa acabou por confidenciar que a colheita de 1982 teria criado demasiadas expetativas e que não estaria a cumpri-las.

Finigan publicaria posteriormente uma crítica muito severa apelidando-a de desapontadora, alcoólica, difícil e com falta de concentração. David Peppercorn, um especialista Inglês em vinhos de Bordéus e o jornalista Frank Prial do “New York Times”, que também provaram “en primour”, apesar de terem gostado não ficaram entusiasmados. Mais tarde, Robards, jornalista da revista “The Wine Spectator”, escreveu que os vinhos eram flácidos mas capazes de dar boa prova enquanto jovens e que tinha reservas sobre a capacidade de envelhecimento da colheita.

Apesar das críticas pouco abonatórias de muitos dos críticos da altura, Parker tinha uma opinião muito diferente, para ele os vinhos eram profundos, opulentos, maduros, ricos, especiados, viscosos e excitantes. E, por isso, a colheita de 1982 seria uma das melhores do século!  

Da mesma forma que Parker esteve atento ao que se passava em Bordéus, também os produtores bordaleses estiveram concentrados nas críticas oriundas dos Estados Unidos da América e decidiram arriscar. O Château Lafite começou por aumentar o preço em 70%,  relativamente à colheita anterior, e rapidamente aumentou o preço ainda mais. Os produtores vizinhos não querendo ficar atrás começaram a replicar a mesma estratégia.

Estas arriscadas movimentações dependeram sempre do aumento da procura e do entusiasmo do consumidor e, acima de tudo, do impacto positivo da edição de abril da “Wine Advocate” nas garrafeiras de Washington e de Nova Iorque.

Muitos vendedores colocaram as notas de Parker junto das garrafas, numa manobra publicitária, para venderem ainda mais. A Sherry-Lehmann chegou a citar páginas inteiras da publicação em anúncios. Houve até quem colocasse 40 garrafas e as respetivas classificações (todas superiores a 90) anunciando-as como as “Escolhas de Parker”. Todo o stock esgotou rapidamente. As garrafeiras aperceberam-se que as opiniões independentes de Parker eram muito benéficas nas vendas e começaram a alavancá-las ainda mais usando o seu nome.

A determinada altura o fenómeno de compra chegou a raiar o histerismo. Em Baltimore, um amigo de Parker, comprou centenas de caixas baseado nas suas recomendações e conseguiu vender todas. Em “Los Angels” uma compra de vários vinhos de 1982 atingiu os 100 000 dólares e um importador de “Long Island” vendeu mais de 200 caixas do Château Gloria em apenas 24 horas. Em Bordéus rapidamente perceberam que o mercado Estado Unidense era o mais ativo de todos e também aquele que mais lucro daria. Talvez, também por isso, a colheita de 1982 tenha ficado na história como “The American Vintage”.

Por um lado, a colheita de 1982 simbolizou um corte quase radical com o passado. O vinho de Bordéus começou a ser genericamente encarado como um investimento financeiro para o futuro. Por outro lado, o mote ficou dado para os anos seguintes. Parker interpretou os critérios que definiam a excelência de um vinho tinto Bordalês e, por inerência, do resto do mundo: cor carregada, grande concentração, muito frutado, viscoso e álcool elevado.

Robert Parker: Um palato (quase) mítico e intocável

No seguimento das controvérsias com diversas personalidades vínicas de ambos os lados do Atlântico e, acima de tudo, com o sucesso que teve a publicação de abril, o número de assinantes suplantou os sete mil. Um número que permitiu algum conforto financeiro.

Com a ascensão ao estrelato vínico, Parker demitiu-se, em março de 1984, do cargo de advogado que desempenhou durante onze anos na empresa “Farm Credits Banks”, para se dedicar de forma quase obsessiva à sua paixão de sempre: o vinho.

A sua rotina diária, que agora de desenrolava em casa, compreendia dezanove horas de estudo, investigação, compra e, acima de tudo, prova de vinhos. Com a ajuda do amigo Jay Miller, que lhe preparava a provas desarrolhando, numerando e envolvendo as garrafas em folhas de alumínio, para as suas provas temáticas. As manhãs estavam reservadas para os vinhos tintos e as tardes para os brancos, que ele considerava mais fáceis de provar por serem menos tânicos.

Para além das provas realizadas em casa, Parker mantinha um circuito anual que se iniciava em março com uma visita a Bordéus para provar “en primeur”, em seguida rumava ao Ródano ou à Borgonha. Em junho regressava a Bordéus para uma segunda ronda pelas amostras de casco e em agosto fazia um périplo pela Califórnia. No outono, regressava ao velho mundo para provar mais vinhos franceses e do Sul da Europa. No total passava mais de três meses em viagens que organizava com precisão milimétrica, que seguiu durante anos, de forma a provar o máximo de vinhos possível. Na altura ninguém viajava ou provava mais do que Robert Parker.

Com o passar dos anos conseguiu treinar o seu palato para analisar metodicamente um vinho em todos os seus componentes, e a sua capacidade para comparar um vinho provado recentemente com outros que teria testado em anos anteriores ficou lendária.

Um fator igualmente primordial na construção de uma imagem quase mítica foi a aparente falta de fadiga do seu palato. Ao longo de um ano de trabalho, Parker provava mais de 10000 vinhos e numa das suas viagens a Itália foi capaz de testar mais de 300 barolos, provenientes de amostras de casco, ao longo de uma semana.

Um fator fulcral na sua aura de incorruptível e de distanciamento do setor estava relacionada, por um lado, com a sua residência. Parker vivia no “Maryland” rural e por isso estava longe dos centros de poder vínicos do país e não era frequentador dos triviais almoços de apresentação de vinhos pelos produtores que envolviam a imprensa. Parker era uma figura praticamente ausente e longínqua e, por isso, foi-se desenvolvendo uma certa aura de mistério em seu torno.

Por outro lado, nas entrevistas que dava focava-se, com particular incidência, no contraste com os seus pares compatriotas e europeus que considerava incompetentes por falta de distanciamento dos produtores ou do comércio. A aura de incorruptível e independente no mundo vínico foi algo que sempre cultivou intensamente e acabou por lhe granjear um enorme prestígio.

Fontes:

  • McCoy, Elin (2005) The Emperor of Wine, Harper Collins, New York
  • https://www.robertparker.com/ (acesso em 30/2/2020)

Deixe uma resposta