A era Robert Parker: um palato, uma métrica e um universo (Parte 1)

RIEDEL Mind the Glass

No início de 1968, um jovem casal, depois de um périplo pela Europa no qual descobriram aromas e sabores na gastronomia e nos vinhos com os quais nunca antes tinham sido expostos, decidiu coroar a experiência com um jantar num dos restaurantes mais emblemáticos de Paris de então, o Maxim’s.

Antes de saírem do hotel barato onde estavam alojados vestiram as melhores roupas que tinham para estarem à altura do acontecimento. Apesar dos seus esforços, foram encaminhados para uma sala do restaurante repleta de turistas menos desejados, longe dos clientes habituais e da nata da sociedade parisiense que regularmente frequentava o estabelecimento.

Quando se sentaram, perceberam imediatamente que a luz do candeeiro da sua mesa piscava incomodamente e com regularidade. Na tentativa de resolver o problema, o empregado recebeu um choque elétrico que o prostrou no chão.

A experiência gastronómica não esteve à altura das espetativas criadas pelo casal, ainda assim, teriam mais uma peripécia para contar quando a sobremesa foi servida. A crosta da tarte estava tão dura que, na tentativa de a perfurar, esta acabou por saltar do prato e alojar-se firmemente nas calças do funcionário que estaria a passar nas imediações.

O jovem casal que passou por essa experiência inesquecível, e quase cómica, era composto por Patricia Hetzel e Robert Parker Jr.

Um palato em desenvolvimento

Pouco tempo depois, Parker regressou a casa e, apesar da desencorajadora experiência gastronómica parisiense, estava determinado em aprofundar a sua nova paixão, o vinho.

O primeiro passo que deu nesse sentido foi comprar os livros disponíveis no mercado das autoridades vínicas da altura: Franck Schoonmaker, André Simon e Alexis Lichine. No entanto, rapidamente percebeu que a literatura vínica era manifestamente insuficiente e teria de começar a provar os vinhos.

Parker reuniu um grupo de prova com alguns amigos da universidade. Cada um contribuía com alguns dólares  com o objetivo de se divertirem e provarem alguns vinhos de topo da Borgonha e de outras denominações. Convém não esquecer que naquela altura um bom vinho da Borgonha custava 5 dólares e um topo de gama raramente custaria mais de 10 ou 15 dólares! Numa dessas provas ficaram muito desapontados com a prova de um Château Lafite-Rothschild de 1958, que custou uns inimagináveis 12,5 dólares.

No verão de 1969, Parker casou com Patricia (Pat), a namorada de sempre. Como prenda de casamento receberam uma viagem com a duração de um mês pela Europa. Os primeiros dias foram passados na cidade de Lisboa e ficaram a conhecer um vinho extremamente popular na Europa e nos Estados Unidos, o Mateus Rosé.

No dia seguinte ao final da lua de mel, Pat começou a ensinar Francês na escola pública local. Como Parker ainda estava a terminar o curso na Universidade de Maryland, durante mais uns anos este seria o único rendimento que o casal usufruía.

A gestão do salário de Pat tinha sempre em linha de conta uma pedagógica visita anual à Europa vínica e a compra de vinhos para as provas de Parker. Esta administração envolveu alguns sacrifícios pessoais de ambos. No inverno não era ligado o aquecimento da casa, o que implicou o uso de mais camisolas por ambos, no entanto a centena de garrafas que Parker tinha na sala de jantar estivera sempre a uma temperatura adequada, pelo menos durante um determinado período do ano.

O contexto favorável

No ano de 1973, Parker era admitido como advogado na empresa Farm Credit Banks, em Baltimore, mas rapidamente percebeu que o mundo vínico, em franco desenvolvimento, era muito mais fascinante do que qualquer barra de tribunal.  

Na verdade, os “baby boomers”, tal como o próprio Parker, já tinham adquirido e refinado novos hábitos gastronómicos mas a cultura vínica estado-unidense estava a implantar-se e a desenvolver-se muito rapidamente. No ano de 1973, a taxa de consumo de vinho cresceu a um ritmo de mais 20% ao ano e os vinhos de 1 dólar, vendidos pela Gallo e por outras empresas, já não satisfaziam os palatos cada vez mais sequiosos e exigentes.

Foi com muita naturalidade que os estado-unidenses de classe média direcionaram os palatos, e as bolsas, para o velho mundo. Em 1969, as vendas dos vinhos de Bordéus subiram 50% e quando surgiram os rumores que a colheita de 1970 seria a melhor do século, o vinho começou a ser vendido em torrentes pelo comerciantes de Nova Iorque.

A procura pelas referências mais sonantes de Bordéus relativas aos anos iniciais da década de 1970 aumentou desmesuradamente e, com ela, o aumento de preço. No entanto, a qualidade das colheitas não estariam de acordo com a procura. Hugh Johnson, já com larga experiência no setor e atento ao mercado, referiu que os preços tinham perdido a ligação à realidade. Aparentemente, ninguém refletiu sobre as suas palavras e os especuladores continuaram a apostar na compra de vinhos que se encontravam no mercado em quantidades cada vez maiores e a preços mais elevados.

Na contracosta, Robert Mondavi, após uma viagem a Bordéus, ficou convencido que seria capaz de produzir vinhos de qualidade semelhante ou superior na Califórnia. Como não obteve consentimento familiar para levar a cabo o seu projeto decidiu lançar a sua própria empresa de vinhos.

Mondavi não estava sozinho. Durante os anos 60 e 70 foram inauguradas dezenas de empresas dedicadas à produção de vinho na zona de Napa Valley e, mais tarde, nos condados de Sonoma e de Mendocito. Muitas delas atingiram o estrelato mundial como foram os casos de: Stag’s Leap Wine Cellars, Caymus, Carneros Creek, Dry Creek, Château Montelena, entre outras.

Curiosamente, para se distinguirem dos vinhos de volume, estas novas empresas lançaram os seus vinhos, em quantidade limitada, mencionando no rótulo a variedade da casta. No entanto, os seus esforços pareceram quase infrutíferos. Afinal, em 1972, a quase ubíqua Gallo produzia cerca de um terço de todo o vinho vendido nos Estados Unidos da América.

A mudança do “status quo” começou a efetivar-se ainda durante a década de 1970 devido à combinação explosiva da crise petrolífera de 1973 e dos preços excessivos das colheitas medianas de Bordéus. No entanto, o golpe de misericórdia talvez tenha sido dado em 1976, pela mão de um Inglês, em Paris, quando organizou a prova cega mais famosa de sempre ao comparar os vinhos, de preço cordato, da Califórnia com alguns dos melhores franceses, muito mais caros.

O desfecho inesperado do sucesso dos primeiros sobre os segundos inaugurou duas perspetivas de análise absolutamente revolucionárias. Em primeiro lugar, os vinhos excecionais deixaram de estar limitados aos “terroirs” franceses e, em segundo lugar, era possível fugir à classificação dos vinhos baseada apenas na localização, na casta e no preço. Para tal bastaria recorrer a uma prova cega, um palato ou um conjunto de palatos e a um algoritmo.  

O tempo de Robert Parker aproximava-se.

 O lançamento da “The Baltimore-Washington Wine Advocate

Ao longo da década de 70, Parker tentou acompanhar os desenvolvimentos do mercado através da compra e posterior prova de vinhos nos grupos que organizava para esse efeito. Com o intuito de tirar o maior partido pedagógico possível das suas compras, as provas eram sempre cegas e as notas que escrevia eram, o mais possível, rigorosas. Ainda assim, o rigor qualitativo do alfabeto não o satisfez e rapidamente adotou o sistema quantitativo, de zero a vinte, da Universidade de Davis.

A falta de elasticidade do sistema levou-o a desenvolver um outro que atribuía cinco pontos à cor e aparência; quinze pontos pelo aroma; vinte pontos pelo sabor e final e dez pontos pela qualidade geral ou potencial. Desta forma, Parker, idealizaria um sistema mais harmónico e extenso que ficaria conhecido como a escala de cem pontos.

Ao longo de 1975 e 1976, Parker, apercebeu-se que a qualidade das últimas colheitas vindas da velha Europa tinha baixado para níveis preocupantes. Ainda assim, as colunas jornalísticas, de ambas as margens do Atlântico, dedicadas à crítica de vinho continuavam a reverenciar os rótulos mais mediáticos e caros.

Na sua opinião, esta situação acontecia porque existiam conflitos de interesse que impediam ou manietavam a livre crítica. Por um lado, Parker reprovava uma boa parte dos críticos devido aos vínculos que apresentavam relativamente ao setor de venda ou importação de vinhos. Por outro lado, não compreendia como era possível conciliar rigor e objetividade na apreciação de um vinho quando se aceitam convites para almoços gratuitos em hotéis elegantes ou quando se é amigo pessoal do produtor.

Parker continuava a adquirir cada vez mais referências para realizar as suas provas. O montante anual ascendia a milhares de dólares e não parava de aumentar. Em breve atingiria valores ainda mais elevados, devido à rápida escalada de preços, e ficaria sem fundos para continuar a alimentar uma das suas maiores paixões.  

A conjugação destes fatores levou-o a pedir um empréstimo, em 1977, para criar e lançar uma “newsletter” intitulada “The Baltimore-Washington Wine Advocate” proveniente de um consumidor-comprador destinada ao consumidor-comprador, direta, objetiva e, acima de tudo, independente do circuito comercial tradicional.   

O assunto principal do primeiro número foi a colheita de 1973 oriunda de Bordéus. Parker, não teve pudor na atribuição de 55 pontos ao Château Margaux e 91 pontos ao Alexander Crown Cabernet Sauvignon cujo valor era de apenas 7 dólares.

O sucesso do projeto foi lento mas progressivo, a “newsletter” estava a chegar a cada vez mais pessoas. No final de 1982 a publicação tinha cerca de sete mil subscritores e Parker, então com 35 anos, tinha motivos para estar contente consigo próprio, no entanto nada faria prever o sucesso meteórico que se avizinhava.

Fontes:

  • McCoy, Elin (2005) The Emperor of Wine, Harper Collins, New York
  • https://www.robertparker.com/ (acesso em 30/11/2020)

6 Comments

    1. Paulo Pimenta

      Sem dúvida. Ainda assim também pode ser observado como um exemplo de uniformização vínica. Algo que aconteceu e que muitos manifestaram discordância. Grande abraço.

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